"Às vezes você me pergunta por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada, nem fico sorrindo ao teu lado
Você pensa em mim toda hora, me come, me cospe e me deixa
Talvez você não entenda, mas hoje eu vou lhe mostrar
Eu sou a luz das estrelas, eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida, eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco, a força da imaginação
O blefe do jogador, eu sou, eu fui, eu vou
Eu sou o seu sacrifício, a placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro e as juras de maldição
Eu sou a vela que acende, eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo, eu sou o tudo e o nada
Por que você me pergunta? Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra, do fogo, da água e do ar
Você me tem todo dia mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você mas você não está em mim
Das telhas eu sou o telhado, a pesca do pescador
A letra A tem meu nome, dos sonhos eu sou o amor
Eu sou a dona de casa, nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco, sou raso, largo, profundo
Eu sou a mosca da sopa e o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego e a cegueira da visão
Mas eu sou o amargo da língua, a mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio"
[Gita, de Raul Seixas]
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